Em 15 de Junho de 2012 o Dead Fish esteve pela primeira vez em Pelotas, fazendo um show pra uma roda infinita no Galpão Satolep. Fiz essa entrevista por email com o baixista e o vocalista da banda (Alyand e Rodrigo, respectivamente, caso alguém não saiba) pro Diário Popular, mas como o impresso tem limite de espaço, algumas coisas ficaram de fora. Fica aí, pra registrar, a íntegra da entrevista, com o mínimo de edição possível.
Alyand
Como foi a gravação do DVD de 20 anos de banda? No que ele difere do MTV Apresenta Dead Fish?
A gravação ficou bem mais orgânica, uma coisa muito mais visceral, pois o diretor (Daniel Ferro) é simplesmente um profissional, que consegue realmente retirar o melhor da banda, e isso fez muita diferença!
No outro DVD, as coisas foram meio na correria para a banda, não era uma coisa que tínhamos programado, e sim a gravadora. Mas gosto bastante também dele, apesar disso.
Os shows atualmente seguem o mesmo repertório ou vocês escolhem as músicas conforme o dia?
Não temos um set list definido, usamos uma base e vamos mudando algumas coisas em cada cidade que passamos.
Com o lançamento do DVD, vamos passar a tocá-lo como no dia da gravação nas capitais, pois os shows serão de lançamento do mesmo.
Que música a galera não deixa vocês saírem sem tocar? E que músicas vocês gostam mais?
Eu acho que não podemos deixar de tocar a música Sonho Médio, esta não tem como, em lugar algum!
Como tu formou o teu estilo de tocar?
Bom, eu passei muito tempo tentando desenvolver minha "paletada" e, com o passar dos anos, eu cheguei onde eu queria. Toco de uma forma única e isso é bem legal para mim!
Eu queria algo diferente de todas as minhas influências, queria conseguir usar tudo de bom delas, mas não ser igual. E consegui, o que me deixa bem feliz e satisfeito com meu instrumento.
Mas continuo estudando e tentando descobrir coisas novas. Antes eu tocava até 6 horas por dia, hoje já não faço isso mais, e ainda estudo um pouco.
Em algumas músicas do Dead Fish o baixo fica em primeiro plano, o que não é muito comum nem no hardcore nem no rock em geral. Isso é insistência tua ou sai naturalmente na composição?
Eu escrevo bastante e componho quase todos os dias, então isso facilita bastante. Acho que por isso o baixo fica em destaque em alguns momentos.
Nunca penso nisso na hora de compor, mas, como sou baixista, acabo fazendo minhas linhas de baixo e pensando nas guitarras também, então isso ajuda. O bom é que é natural.
Tirando obviamente as trocas na formação, o que mudou no Dead Fish como banda nesses 20 anos?
Eu acho que a mudança mais nítida é que estamos mais velhos KKKKK.
Somos uma banda que sempre teve pé no chão e isso ajuda muito. Mas estamos cada vez mais cascudos para o mercado fonográfico, e isso é bom, pois usamos todos os nossos erros antigos para não mais errar e continuarmos na estrada.
As mudanças de formação também "representam" no nosso relacionamento. Hoje estamos numa fase boa, maduros, resolvidos e dispostos a tocar. O Marco, nosso baterista há mais de 3 anos já, trouxe vida nova para a banda, o que ajuda, e muito! Estamos loucos para fazer o disco novo com ele!
Pra banda qual é o melhor momento, a roda comendo solta ou a plateia cantando a música junto?
Eu acho que o show é uma coisa única! Pois quando você sobe no palco nada mais interessa, as coisas somem, todos os problemas, dificuldades, tudo acaba ali!
E isso graças ao público, que ajuda bastante com carinho e troca de energia. Eu acho que o conjunto todo é especial!
Rodrigo
O que tu achas do cenário hardcore nacional atualmente?
Eu gosto muito, acho que existe uma qualidade muito boa nos dias de hoje, não só entre as bandas, mas entre as pessoas envolvidas no cenário. Só acho que a coisa se segmentou demais e muitas vezes a gente perde força com isso. Como estou envolvido com a coisa toda há mais de vinte anos, acho que existem ciclos dentro do cenário.
E da indústria? Já vi uma entrevista em que tu dizia que vocês entraram com ela já meio afundando, e agora, já afundou totalmente?
Não afundou totalmente e nem vai afundar de vez, mas já perdeu muito do poder que tinha. O mais curioso é que não vejo o que acontece lá fora, com o enfraquecimento do mainstream, o independente ganhou mais força, com novos formatos e internet.
Considerando que, até pros fãs, as letras fazem parte da personalidade do Dead Fish, o que é mais importante pra vocês, a música ou a mensagem?
Eu sou o cara que escreve as letras em boa parte do tempo, né? Acho isso importante. Sempre foi muito relevante internamente, ao mesmo tempo também sempre quisemos nos manter uma banda de sonoridade Hardcore (sic), então acho que a coisa, se não anda super junto, anda quase todo tempo junto.
Quais são as tuas influências como letrista? Bandas, escritores?
Olhando pra trás, eu acho que li mais livros do que ouvi bandas na minha vida. Musicalmente, as primeiras influências foram o punk brasileiro dos 80 e o punk/HC californiano dos 80/90 e até rap; na parte de literatura, no começo foi a literatura mais de esquerda da América do Sul, como Florestan Fernandes, Galeano, alguma coisa de teóricos e filósofos europeus, Marx, Stirner, Gorky, depois vieram Foucault, Nietzsche, escritores como Huxley, Hesse, quadrinhos e livros do Grant Morrison, Palahniuk, situacionistas etc, etc. Vivendo em São Paulo, passei a ler Tragtenberg, Roberto Piva e por aí vai.
O Contra Todos tem só 3 anos e foi um disco bastante otimista, em alguns momentos. Quando até as críticas encontradas no Sirva-se seguem valendo, como se mantém essa esperança?
Muitas delas se foram depois dos governos tidos como de esquerda e outras se foram com a idade. Não sei se tenho mais a esperança de se ter um senso de comunidade, como desejava num Sonho Médio, por exemplo, mas o Contra Todos foi uma retomada, depois de tantos anos. Ainda acredito que se pode fazer a diferença e mudar as coisas se mudando, acreditando que o indivíduo pode fazer muita diferença, e acho que isso já está lá atrás, no Sirva-se.
Pra finalizar, vocês chegaram a ver o "suicida" nesse show em POA? É daqui, vai estar no show de Pelotas com certeza. Boa comemoração aí!
Hahaha eu não tinha visto não. Nossa, isso às vezes tira a concentração, me sinto velho, me sinto o tio que lança aquele "ô, moleque do caralho! Cuidado!".
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